Constelações
Os nossos olhos foram projectados para fornecer uma visão tridimensional do mundo que nos rodeia. Mas não somos capazes de perceber a profundidade além de uma certa distância. No firmamento, essa falta de percepção chega ao seu extremo e isso gera a falsa impressão de que a Lua, uma estrela ou uma nebulosa estão equidistantes de nós. Estão todos numa imensa esfera que circunda a Terra, a esfera celeste.
Esse conceito, apesar de incorrecto, revelou-se um excelente sistema de referência, usado até hoje. Outra acção involuntária do ser humano é associar os grupos de estrelas mais brilhantes a figuras conhecidas, como num desenho para crianças onde têm de juntar os pontos. Esses desenhos imaginários são as constelações.
Constelação, do latim constellatio, significa reunião de estrelas, um agrupamento arbitrário de estrelas que representa a silhueta de seres mitológicos, animais ou objectos.

Os povos antigos, vivendo da caça, da pesca e da agricultura, precisavam conhecer detalhadamente o clima, épocas de plantio e de colheita e o céu estrelado ajudava neste sentido. Além de servir como calendário, lembrando as épocas do ano, explicava fenómenos naturais. Em especial, as constelações zodiacais surgiram para marcar a trajectória aparente do Sol durante o ano. Partindo da posição em que o Sol estivesse no fundo estrelado, eram feitas correlações directas com as condições climáticas na Terra e com as estações do ano. Exemplos característicos são as constelações de Aquário e de Virgem. Aquário, para alguns povos, era associada à época das chuvas, e por consequência, simbolizava fertilidade. Para os egípcios, as cheias do Rio Nilo eram provocadas pelo deus Aquário que anualmente despejava seu gigantesco jarro de água nas nascentes do mesmo. Já a Constelação de Virgem, foi assim baptizada pois quando o Sol estava nesta região do céu, era época da colheita do trigo, tarefa reservada às raparigas virgens.

Para cada estação do ano há uma constelação símbolo. Órion: simboliza o verão para o hemisfério sul e o Inverno para o hemisfério norte; Leão: Outono para o sul e primavera para o norte; Escorpião: Inverno para o sul e verão para o norte; Pégaso: primavera para o sul e Outono para o norte. Revestindo a realidade de mitos, os gregos foram grandes nesta arte. Segundo eles, Órion era um gigante guerreiro e caçador amante da Astronomia, que certa vez desafiou Artemis (Diana para os romanos), a deusa da caça, dizimando os animais da Terra. Indignada com a situação, incumbiu um escorpião de matá-lo. Na luta ambos morreram e em seguida foram transformados pela mesma em constelações.
Cada povo ou tribo tinha as suas próprias constelações e, para memorizá-las criavam mitos. Por exemplo, a constelação do Leão lembrava, para todos os povos antigos, o Sol. O rei dos animais não poderia deixar de ser associado ao astro-rei que quando estava nesta região do céu trazia o verão. Este animal era o Leão de Neméia morto por Hércules num dos seus doze trabalhos.
Na constelação de Pégaso está registada uma bela história de amor. Pégaso foi o cavalo alado que ajudou Perseu a salvar a amada Andromeda das garras de um monstro marinho chamado Cetus. Pégaso nasceu do sangue que jorrou no mar quando Perseu arrancou uma das cabeças da medusa, monstro de várias cabeças que petrificava todos que o olhassem. Montado no cavalo alado, Perseu carrega a cabeça arrancada e mira para Cetus petrificando-o e assim salva sua amada.
Actualmente as constelações não possuem o significado que tinham na antiguidade. São utilizadas pela Astronomia para indicar direcções do Universo e facilitam o reconhecimento do céu. Estrelas brilhantes como Canopus (const. Carina), Formalhaut ( Const. Peixe Austral) e Sírius (Cão Maior) são utilizadas para direccionar equipamentos na navegação espacial.
Em 1930 a UAI (União Astronómica Internacional), em virtude da precisão exigida pela moderna Astronomia, dividiu geometricamente o céu estrelado em 88 constelações, preservando os nomes herdados em grande parte de civilizações ocidentais antigas. Assim tudo que observamos no céu, seja a olho nú ou com telescópio, está sempre dentro de uma determinada constelação.
Por Marta Santos
in "Gazeta de Paços de Ferreira"

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